O primeiro supermercado alemão a vender apenas produtos vencidos ou que seriam jogados fora foi aberto na cidade de Colônia. De curiosos a comprometidos contra o desperdício de alimentos, todos que vieram ao mercado The Good Food, inaugurado em fevereiro, mostraram-se animados pela abertura de uma loja diferente de tudo que já tinham visto.

O estabelecimento é o primeiro do gênero no país e o terceiro na União Europeia (UE). Nele são vendidos produtos de todos os tipos, de vegetais a cerveja. O diferencial é que todos os produtos teriam sido jogados fora. Outro aspecto peculiar sobre o The Good Food é que não há preços fixos. Os consumidores decidem quanto acham que vale cada produto.

A proprietária Nicole Klaski menciona estatísticas para explicar por que decidiu abrir o The Good Food. Todos os anos, um terço dos alimentos produzidos no mundo são desperdiçados. Se apenas um quarto disso fosse reaproveitado seria possível alimentar quase 900 milhões de pessoas, de acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

No lixo se não for mais perfeito

O cineasta Valentin Thurn, premiado pelo documentário Taste the Waste (experimente o desperdício), compareceu à abertura do mercado para celebrar o que ele vê como uma boa iniciativa de combate ao desperdício de alimentos. Mas ele diz que ainda há desafios a serem superados. “Essa ideia é simplesmente fantástica”, comenta. “Não consigo entender por que jogamos tanta comida fora!”

Mas ele tem uma hipótese. “O comércio sabe que preferimos comprar algo que parece perfeito”, diz. De fato: informações da FAO mostram que comida é desperdiçada principalmente porque não é mais atraente. Para Klaski, é hora de mudar isso. Ela vai a lavouras depois da colheita e recolhe os legumes deixados para trás. Alguns são considerados muito grandes, outros muito pequenos, outros ainda muito feios para serem vendidos.

No supermercado dela, os alimentos estão disponíveis a todos dentro do sistema “pague o quanto quiser”. Os compradores também podem encontrar produtos não perecíveis de grandes fabricantes com data de validade vencida. “Ninguém quer jogar comida fora”, comenta Klaski. “Salvamos legumes e produtos vencidos. E os produtores ficam satisfeitos, pois seus alimentos continuam sendo consumidos.” Para ela, trata-se de um situação em que todos saem ganhando.

E os riscos para a saúde?

Alguns dos curiosos que vieram à inauguração do The Good Food admitiram que não comprariam determinados produtos caso estivessem vencidos. Outros disseram ser fácil afirmar pela cor ou cheiro se um produto ainda está em condições de ser consumido. Klaski afirma não estar preocupada com eventuais riscos à saúde. “Os prazos de validade dos produtos são apenas uma sugestão ao consumidor”, explica. “A maioria dos produtos dura muito mais tempo.”

Mas, se um consumidor realmente ficar doente, alguém tem que assumir a responsabilidade. E é por isso que Klaski garante que sua equipe leva muito a sério o dever de informar os clientes quando um produto passou da data de validade. “E, claro, se algo acontecer, teremos que assumir a responsabilidade”, acrescenta. “Mas estamos dispostos a fazer isso, pois vale a pena.”

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Parte de um movimento mais amplo

Ao contrário do objetivo tradicional de um supermercado – gerar lucro – o The Good Food visa o impacto social. “Nossa maior expectativa é elevar a conscientização sobre o problema que o desperdício de alimentos representa”, explica Anja Rickert, membro da equipe do The Good Food. Ela diz acreditar que iniciativas como essa podem esclarecer as pessoas sobre questões relacionadas a um modo de vida sustentável.

Thurn diz ter observado uma enorme mudança de atitude desde que ele produziu o documentário Taste the Waste, em 2010. “Naquela época ninguém falava sobre desperdício de comida, mas literalmente ninguém”, diz. “Agora muitas pessoas estão envolvidas nisso, até mesmo políticos.”

Klaski está convencida de que, depois que o primeiro passo é dado, o restante vem por si. Segundo ela, o supermercado de produtos que seriam desperdiçados é parte de um movimento maior para reduzir o consumo e conscientizar as pessoas sobre como a sociedade consome. O mobiliário na loja, por exemplo, é todo de segunda mão ou reciclado. A maioria dos clientes parece compartilhar da mesma filosofia. “Vir aqui representa mais do que apenas comprar comida, é um modo de vida”, diz um cliente.

Fonte: Carta Capital